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ACT 2026/2027: Correios oferecem 0,82% e propõem mudanças em direitos

Empresa propõe reajuste de apenas 20% do INPC e apresenta mudanças em férias, trabalho em feriados, plano de saúde e representação dos trabalhadores

Os Correios apresentaram nesta terça-feira (18), em Brasília, a proposta econômica para o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2027. A empresa oferece reajuste de apenas 0,82%, correspondente a 20% do INPC acumulado de 4,10% entre agosto de 2025 e julho de 2026.

Mas o índice de reajuste não é o único ponto que merece atenção.

Na mesma negociação, os Correios colocam na mesa mudanças que atingem a gratificação de férias de 70%, o pagamento pelo trabalho em repousos e feriados, o plano de saúde, as liberações de dirigentes sindicais e a preparação dos empregados eleitos para conselhos.

Ou seja: para o trabalhador, a discussão do ACT 2026/2027 vai muito além dos 0,82%.


O reajuste proposto fica bem abaixo da inflação

A proposta econômica apresentada pelos Correios considera 20% do INPC acumulado no período.

O INPC utilizado na negociação é de 4,10%.

Aplicando 20% sobre esse índice, chega-se aos 0,82% oferecidos pela empresa.

Na prática, isso significa que os Correios não estão propondo a reposição integral da inflação. O reajuste oferecido corresponde a apenas uma parte do índice acumulado.

O mesmo percentual de 0,82% seria aplicado a benefícios como Vale-Refeição/Alimentação, reembolso-creche e babá, auxílio para empregados e dependentes com deficiência, vale-transporte e Quebra de Caixa.

Para quem está no dia a dia das unidades, a pergunta é simples: com os preços subindo mais do que o salário, como fica o poder de compra do trabalhador?

Gratificação de férias de 70% volta a entrar na disputa

Outro ponto importante da proposta é a retirada da cláusula que garante a gratificação de férias de 70% da remuneração, além do terço constitucional.

É importante explicar isso corretamente.

A proposta não significa que os trabalhadores ficariam sem o adicional constitucional de férias. O que está sendo colocado em discussão é justamente a parcela adicional garantida pela negociação coletiva.

O atual ACT prevê a gratificação de férias de 70%. O texto do acordo estabelece essa vantagem para os empregados abrangidos pela cláusula.

Portanto, se a proposta da empresa for aceita nessa parte, a categoria deixaria de contar com essa garantia prevista no acordo coletivo e passaria a ter como referência o que estiver assegurado pela legislação.

E esse não é um detalhe pequeno.

A diferença entre receber a gratificação prevista no ACT e ficar apenas com o mínimo legal pode representar uma perda importante justamente no período em que o trabalhador recebe as férias.

Trabalho em domingos, repousos e feriados pode ficar mais barato para a empresa

A proposta também mexe no pagamento dos empregados que trabalham em dias de repouso semanal e feriados.

Os Correios querem reduzir de 200% para 100% o pagamento correspondente ao dia trabalhado nessas condições. A proposta também prevê o pagamento de VA/VR pelo dia trabalhado e admite a possibilidade de substituição do pagamento por duas folgas compensatórias, conforme as regras da cláusula.

Esse ponto merece atenção porque o trabalhador precisa saber exatamente quem poderá optar pelas folgas, quando elas serão concedidas e como ficará o pagamento.

Não basta dizer que haverá “folga compensatória”.

Na prática, quem trabalha sábado, domingo ou feriado precisa saber:

vai receber quanto?

vai receber o vale?

quem decide pela folga?

quando essa folga será dada?

São detalhes que fazem diferença na vida de quem está na operação.

Plano de saúde: proposta abre espaço para mensalidade e coparticipação

A proposta também altera a cláusula que trata do plano de saúde.

Os Correios querem ampliar as possibilidades de definição do modelo de assistência e propõem uma modalidade por meio de operadora contratada, com adesão facultativa, mensalidade e coparticipação.

Aqui está uma das maiores preocupações para os trabalhadores.

A empresa justifica a mudança pela necessidade de redução de despesas. Mas, para quem depende do plano, existe outra pergunta:

quanto isso vai custar para o trabalhador e sua família?

Uma mensalidade significa uma despesa fixa.

A coparticipação significa que o empregado pode ter novos valores a pagar quando utilizar determinados serviços.

Por isso, antes de qualquer mudança, a categoria precisa conhecer os valores, as regras e as condições desse modelo.

Dizer que a adesão será facultativa não responde, sozinho, à principal dúvida de quem precisa do plano: qual será o custo?

Liberação de dirigentes sindicais também entra na negociação

Outra proposta apresentada pela empresa envolve as liberações de dirigentes sindicais.

Pelas regras atuais mencionadas na negociação, são previstas liberações de 15 empregados por federação e 6 por sindicato, dentro dos critérios estabelecidos, sem prejuízo da remuneração e demais vantagens.

Os Correios questionam esse modelo e apontam um custo estimado em aproximadamente R$ 35 milhões por ano, além das despesas relacionadas à reposição dos trabalhadores nas unidades.

Esse é o argumento apresentado pela empresa.

Mas existe outro lado que também precisa ser considerado.

O dirigente liberado não está simplesmente deixando de trabalhar. Ele está atuando na representação dos próprios empregados, participando de negociações, reuniões, acompanhamento de problemas e defesa dos trabalhadores.

Por isso, a discussão não pode ficar apenas na conta de quanto custa a liberação.

Também precisa existir a discussão sobre quanto vale para a categoria ter representantes com condições de atuar.

Empresa quer retirar tempo de preparação dos representantes nos conselhos

A proposta ainda atinge os empregados eleitos para representar os trabalhadores no Conselho de Administração dos Correios e nos conselhos da Postal Saúde e do Postalis.

Atualmente existe previsão de cinco dias de liberação antes de cada reunião, incluindo o período de trânsito, para que esses representantes possam se preparar para as matérias que serão discutidas.

Os Correios propõem retirar essa previsão.

A justificativa apresentada pela empresa é de que a alteração atende a uma determinação da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST/MGI).

Aqui também existe uma questão prática.

Se um trabalhador foi eleito para representar milhares de empregados e precisa analisar documentos, números e decisões que serão discutidas em uma reunião, ele precisa de tempo para estudar o material.

A categoria precisa acompanhar de perto essa mudança e verificar exatamente qual foi a orientação da SEST/MGI e como ela se aplica aos representantes dos empregados.

A negociação acontece em meio à crise dos Correios

A proposta não pode ser analisada separadamente da situação financeira da empresa.

Os Correios vêm defendendo uma ampla reestruturação, com redução de despesas, mudanças operacionais e medidas para recuperar as contas.

A própria empresa tem apresentado a situação financeira como justificativa para várias medidas adotadas nos últimos meses.

No início de 2026, por exemplo, o STF suspendeu cláusulas relacionadas à gratificação de férias de 70%, ao pagamento de 200% pelo trabalho em dias de repouso e ao plano de saúde, após pedido dos próprios Correios. O ministro Alexandre de Moraes considerou os impactos financeiros apresentados pela empresa ao analisar o pedido.

Agora, esses mesmos temas voltam ao centro da negociação do novo acordo coletivo.

Isso mostra que a discussão do ACT 2026/2027 acontece em um momento bastante diferente de outras campanhas salariais.

A empresa diz que precisa reduzir custos.

Os trabalhadores, por outro lado, também enfrentam os efeitos da reestruturação, com redução de efetivo, mudanças nas unidades e aumento da pressão sobre quem permanece trabalhando.

A conta da crise não pode cair somente sobre quem está na base

O argumento financeiro dos Correios precisa ser colocado na mesa.

A empresa tem problemas financeiros e precisa recuperar sua capacidade de investimento e operação.

Mas existe uma questão que não pode ser ignorada:

quem vai pagar pela recuperação da empresa?

Se a solução passa por reajustar somente 20% do INPC, reduzir vantagens, mudar a remuneração do trabalho em repousos e feriados, alterar o modelo de assistência médica e limitar mecanismos de representação, é legítimo que os trabalhadores perguntem qual será a parte dos demais setores da empresa nesse esforço.

A categoria já está enfrentando redução de trabalhadores e mudanças na organização do trabalho.

Quem está na rua entregando encomendas, atendendo nas agências, trabalhando nos centros de tratamento e mantendo as unidades funcionando todos os dias também está pagando uma parte dessa crise.

Por isso, a recuperação dos Correios não pode ser discutida apenas pela ótica da redução de custos com os trabalhadores.

É preciso discutir gestão, investimentos, estrutura, logística, receitas, concorrência e o papel da empresa pública.

O que está sendo negociado ainda não está decidido

É importante deixar isso claro.

Os pontos apresentados pelos Correios são propostas de negociação.

Eles ainda precisam passar pelo processo de discussão com as entidades representativas e pela avaliação da categoria.

Portanto, não é correto dizer que os 70% de férias já acabaram ou que o plano de saúde já mudou.

Nada disso está definitivamente decidido neste momento.

O que existe é uma proposta patronal que coloca esses direitos novamente em disputa.

E é justamente por isso que a participação dos trabalhadores será importante.

Opinião | 0,82% é apenas uma parte da discussão

O percentual de 0,82% chama atenção porque está muito abaixo do INPC de 4,10%.

Mas o trabalhador precisa olhar o conjunto da proposta.

De um lado, aparece um reajuste pequeno.

Do outro, estão mudanças que podem atingir o valor das férias, o pagamento pelo trabalho em domingos, repousos e feriados, o custo da assistência médica e a própria estrutura de representação dos empregados.

Por isso, o debate do ACT 2026/2027 não pode ficar limitado à pergunta:

“Quanto vai ser o reajuste?”

A pergunta precisa ser maior:

“O que a categoria vai ganhar, o que pode perder e como ficará a vida do trabalhador depois desse acordo?”

A negociação está apenas em mais uma etapa. Agora é hora de acompanhar, cobrar transparência e discutir a proposta com a base.

E você, trabalhador dos Correios, o que acha?

A proposta de 0,82% é suficiente?

O que deve ser prioridade na negociação do ACT 2026/2027?

Comente, dê sua opinião e compartilhe esta matéria com seus colegas. A negociação precisa ser discutida por quem vai sentir seus efeitos no dia a dia.

✍️ Por Junior Solid

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