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Correios anunciam desconto do tíquete da greve de 2025 na mesma semana em que a categoria se prepara para greve de novo

Dá pra chamar de coincidência retomar um desconto contestado bem no mês em que a categoria volta a parar? A gente não está tão certo disso.

Chegou carta nova da direção dos Correios para as Federações. Assunto: vão retomar o desconto do vale-alimentação e do vale-refeição referente aos dias parados na greve do fim de 2025. Passa pelo caixa da empresa a partir do crédito de setembro. Dez mil e cento e vinte e um trabalhadores vão sentir isso no bolso, em três parcelas - setembro, outubro, novembro. A carta faz questão de dizer que isso "não constitui penalidade" por ter feito greve. A Findect discorda, e olhando o calendário fica difícil não desconfiar: o desconto começa justamente na semana em que a categoria se organiza pra uma nova greve geral, marcada pro dia 10 de setembro.


Como chegamos até aqui: da greve ao desconto na carta

A Gerência Corporativa de Relações do Trabalho (GERT/DEREO) assina o documento e usa uma decisão do TST — o Dissídio Coletivo de Greve nº 1001307-73.2025.5.00.0000 — como base pra autorizar o corte dos dias parados. Só que, em cima disso, entidades sindicais entraram na Justiça (Ação Civil Coletiva nº 0000602-28.2026.5.10.0017) discutindo especificamente se esse desconto podia mexer no VA/VR.

Rolou uma liminar suspendendo o desconto que seria feito em maio. O crédito saiu inteiro naquele mês. Agora a liminar caiu, a ação foi extinta, e a empresa diz que está liberada pra retomar.

Quem entra na conta: 10.121 empregados no país inteiro. Maior concentração em São Paulo (3.920 entre capital e interior), Rio de Janeiro (1.661) e Rio Grande do Sul (879). O cronograma que a empresa apresentou:

  • 1ª parcela — setembro/2026
  • 2ª parcela — outubro/2026
  • 3ª parcela — novembro/2026

Tem um detalhe curioso no fim da carta: os Correios pedem para as Federações ajudar a "divulgar" a notícia pros sindicatos e trabalhadores. Ou seja, quem devia estar cobrando explicação da empresa vira, no discurso dela, uma espécie de porta-voz do comunicado.

Correios chamam de rotina, Findect chama de armadilha jurídica

A versão dos Correios é simples: caiu a liminar, então pode descontar, e isso não tem nada a ver com punir quem fez greve - é só "continuidade de procedimento administrativo". Bonito no papel.

A Findect não compra. O entendimento da Federação é que não existe previsão expressa pra esse desconto na Decisão Normativa do TST de 30/12/2025 — e que não é costume do Tribunal mandar descontar direto do tíquete do trabalhador. Na prática: a base jurídica que a empresa usa pra justificar o corte é discutível, e ela está andando com isso mesmo assim, sem esperar a poeira baixar.

E não é a primeira vez que rola essa dança. Desde janeiro a Findect vinha cobrando os Correios por descontos errados na folha — inclusive desconto em cima de dia de repouso, que a própria empresa depois admitiu que estava errado e teve que devolver. Então tem histórico. Empresa desconta, sindicato cobra, aí sim vem correção. Não custa desconfiar que dessa vez também vá dar problema.

Por que esse anúncio sai bem na véspera da greve de 10/09

Tem um motivo pra esse anúncio sair justo agora, e não é só burocracia processual andando. O ACT 2026/2027 travou em 12 de agosto. Na mesa de benefícios, a proposta dos Correios pro reajuste do VA/VR foi aplicar só 20% do INPC acumulado — na prática, menos de 1% de reajuste real. E ainda colocaram em pauta mudanças que ameaçam mexer no plano de saúde da categoria.

Sem avanço na mesa, a mobilização foi pra rua: greve geral marcada pro dia 10 de setembro. E é exatamente nesse contexto que chega a carta anunciando um desconto discutido na Justiça, começando no crédito do mesmo mês da greve.

Coincidência de calendário processual? Pode até ser. Mas quem trabalha nos Correios já viu esse filme antes: desconto pesando no bolso costuma esfriar um pouco o ânimo de quem está decidindo se vai pra rua ou não.

No fim das contas, quem paga é sempre o trabalhador

Ninguém aqui está dizendo que os Correios inventaram o desconto do nada — parte dele vem, sim, de decisão do TST validando o corte dos dias efetivamente parados. Isso está resolvido. O que não está resolvido é se dá pra estender esse corte pro vale-alimentação sem previsão clara pra isso — e por que a empresa resolveu apertar o botão agora, sem esperar o fim da briga jurídica e sem explicação direta pra quem vai ver o crédito menor.

Enquanto essa conta não fecha, quem paga é sempre o mesmo: o trabalhador que vai abrir o aplicativo em setembro e ver menos dinheiro pra fazer a feira do mês.

A categoria já entendeu o recado. Falta ver se vai engolir — ou se vai responder no dia 10.

Já reparou desconto estranho no seu tíquete? Deixa aqui nos comentários e compartilha com quem também foi pego de surpresa. Quanto mais gente souber, mais forte fica a cobrança.

✍️ Por Junior Solid

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