ACT 2026/2027: Correios corre pro TST depois de levar "não" da categoria - e esconde o motivo real da rejeição
Depois de ver a proposta ser rejeitada em peso nas assembleias, a empresa pediu mediação ao TST nesta quinta-feira (27) — mas o comunicado oficial aos trabalhadores nem menciona o reajuste de 0,87% que motivou a revolta.
Os Correios encaminharam, nesta quinta-feira (27), pedido de mediação ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) para tentar destravar a construção do Acordo Coletivo de Trabalho 2026/2027. O movimento acontece dois dias depois de a proposta da empresa ter sido rejeitada nas assembleias realizadas em todo o país, na terça-feira (25). Enquanto isso, o comunicado interno distribuído aos empregados fala em "sustentabilidade econômico-financeira" e lista garantias mantidas — mas evita citar os pontos que realmente pesaram na decisão da categoria.
O que a empresa apresentou (e o que não contou no comunicado)
A proposta oficializada pelos Correios em 18 de agosto trouxe como carro-chefe um reajuste salarial de 0,87%, correspondente a apenas 20% da variação acumulada do INPC entre agosto de 2025 e julho de 2026. Na prática, um índice que fica muito abaixo da inflação real do período — e que a própria empresa chegou a divulgar de forma equivocada antes de corrigir o número.
Além do arrocho salarial, a proposta prevê:
- Fim da gratificação de férias de 70%, com o pagamento caindo para o mínimo da CLT (1/3 da remuneração);
- Mudança no plano de saúde, que passaria a ser oferecido por operadora contratada, com mensalidade e coparticipação dos empregados - e fim da rede própria de prestadores, segundo a FENTECT;
- Novas regras para liberação de dirigentes sindicais, com o custo repassado às entidades representativas.
No comunicado enviado aos trabalhadores logo após o pedido de mediação, nada disso aparece. O texto opta por destacar que 77 das 80 cláusulas do acordo atual foram mantidas (56 integralmente, 21 com ajustes) e reforça garantias sociais somadas em "mais de R$ 60 milhões por ano" — como auxílio para dependentes com deficiência e licenças estendidas. É um número real, mas isolado: ele não muda o fato de que o reajuste de 0,87% e a mudança no plano de saúde atingem 100% da categoria, não apenas quem usa essas garantias específicas.
Por que a proposta caiu tão mal
A rejeição não veio do nada. Em Pernambuco, por exemplo, a decisão foi tomada por unanimidade — os trabalhadores classificaram o índice de reajuste como "vergonhoso" por não repor nem de longe a inflação do período. O cenário se repetiu em assembleias por diferentes estados, reunindo FENTECT, FINDECT e mais 36 sindicatos filiados numa campanha nacional unificada.
O pano de fundo é o Plano de Reestruturação dos Correios, em execução desde janeiro de 2026, que já inclui a venda de patrimônio histórico da estatal — como o icônico Palácio dos Correios no Rio de Janeiro, levado a leilão, e o prédio centenário de Petrópolis, colocado à venda em maio. A empresa apresenta a proposta do ACT como resultado inevitável da "gravíssima situação econômica", mas os trabalhadores questionam por que o ajuste recai sobre salário, férias e saúde, enquanto o discurso de sustentabilidade convive com desmonte de patrimônio público.
Mediação no TST e indicativo de greve
Rejeitada a proposta, a empresa optou por acionar o TST nesta quinta — repetindo o roteiro do ACT anterior, quando a mesma sequência (mediação, rejeição em assembleia, risco de dissídio coletivo) também se repetiu. Só que dessa vez a categoria já tem data marcada para dar a resposta dela: o calendário nacional de mobilização prevê assembleia com indicativo de greve para 10 de setembro, com a paralisação começando à 0h do dia 11 de setembro, caso aprovada.
O ciclo se repete
A mediação do TST pode render uma nova proposta - foi assim no ciclo passado, quando o Tribunal chegou a determinar ampla divulgação de uma versão revisada aos trabalhadores. Mas a pergunta que fica é: essa nova rodada vai atacar o que realmente pesa no bolso da categoria, ou vai repetir o pacote de sempre embrulhado em outro discurso de "sustentabilidade"?
Enquanto isso, cabe à categoria seguir de olho: no que a empresa comunica oficialmente (e no que ela escolhe não comunicar), no andamento da mediação e na mobilização rumo ao dia 10 de setembro.
A categoria já disse não uma vez. A pergunta agora é se os Correios vão ouvir — ou só vão trocar de tribunal pra tentar emplacar a mesma proposta.
Você participou da assembleia do dia 25? Como foi na sua base? Conta nos comentários e compartilha com quem também está acompanhando o ACT 2026/2027.
✍️ Por Junior Solid
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