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Correios não estão sozinhos: Shopee, Mercado Livre e apps de comida também estão quebrando o comércio brasileiro

Enquanto o trabalhador dos Correios ouve que a culpa da crise é "falta de eficiência", loja física e restaurante de bairro estão fechando pelo mesmo motivo — e ninguém está juntando os pontos.

Os Correios fecharam 2025 com prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões, o pior resultado desde o Plano Real. Casas Bahia, Marabraz e Americanas vivem o mesmo aperto. Habib's sente o mesmo golpe. A pergunta que fica é simples: será que é coincidência todo mundo estar quebrando ao mesmo tempo?


Não é só os Correios - é o comércio inteiro

Todo trabalhador dos Correios já ouviu a mesma cantilena: "a empresa é ineficiente", "falta modernização", "é hora de privatizar". Só que quem olha pro lado vê a mesma crise batendo em loja de eletrodoméstico, rede de roupa e até lanchonete de esquina.

Não é sobre os Correios serem ruins. É sobre um modelo de negócio inteiro - o comércio com endereço fixo, gente contratada e conta pra pagar todo mês - perdendo terreno pra plataformas que operam com outra lógica de custo. E que, em alguns casos, nem estão jogando limpo.

O trabalhador também é cliente - e sente na pele

Pega o exemplo mais simples: máquina de lavar, smart TV, geladeira. Cada vez mais gente vai até a loja física só pra ver o produto de perto - e depois compra mais barato no site. Isso tem nome no mercado: showrooming. A loja banca aluguel, luz, vendedor, segurança, e vira vitrine de graça pro concorrente digital.

Do outro lado, um Markplace consegue atender o Brasil inteiro sem precisar de dezenas de lojas espalhadas, sem manter vendedor parado esperando cliente em dia fraco. É estrutura de custo mais enxuta — e por isso o preço cai.

Com comida é parecido, só que tem um agravante. Quando o restaurante entra pro iFood, a plataforma cobra comissão sobre cada pedido - historicamente algo entre 12% e 27%, dependendo do plano. Esse custo vai pro preço do lanche. Quem pede pelo app paga mais caro pelo mesmo produto que pagaria no balcão. E mesmo assim o dono migra pra lá, porque sem aparecer no aplicativo, ele simplesmente some do radar do cliente.

Correios, Casas Bahia, Habib's: o fio que conecta os três

O que une esses casos não é falta de esforço de quem trabalha. É concentração de poder de mercado nas mãos de quem controla a plataforma - e não de quem produz o bem ou entrega o serviço.

Os números dos Correios mostram isso com clareza:

  • Em 2024, prejuízo de R$ 2,6 bilhões — o pior resultado desde 2015, com queda de 10,6% no volume de encomendas entregues, enquanto Mercado Livre, Amazon e Shopee ampliavam capilaridade.
  • Em 2025, o rombo mais que triplicou: R$ 8,5 bilhões de prejuízo, o pior resultado desde 1994. A receita bruta caiu 11,35% no ano.

A própria estatal aponta a chamada "taxa das blusinhas" - imposto de 20% sobre compra internacional até US$ 50, sancionado por Lula em junho de 2024 — como fator central da piora. Mas o problema é mais antigo e mais amplo: é a migração estrutural do consumidor pra plataformas com custo fixo muito menor.


Quando a concorrência deixa de ser justa

Tem uma diferença entre perder mercado pra quem é mais eficiente e perder mercado pra quem joga sujo. Em maio de 2025, os próprios Correios entraram com denúncia formal no CADE contra a Shopee e a transportadora J&T Express, acusando as duas de dumping - vender abaixo do custo, de propósito, pra sufocar a concorrência. A alegação é que a J&T chega a operar com prejuízo de até 40% por entrega, justamente pra "quebrar" concorrentes menores, incluindo os próprios Correios.

Se a denúncia for confirmada, é a prova de que parte dessa "eficiência" das plataformas não vem só de estrutura enxuta - vem de capital estrangeiro bancando prejuízo ano após ano até sobrar só ela no mercado. Depois que a concorrência quebra, o preço sobe pra quem ficou.

Não é o governo que está fechando essas lojas

Tem gente que vai tentar jogar a crise do comércio físico na conta da economia como um todo, ou de política de governo. Os números não sustentam essa versão.

De 2023 pra cá, os principais indicadores do país melhoraram, e melhoraram de forma consistente: o desemprego caiu ano após ano - 7,8% em 2023, 6,6% em 2024, 5,6% em 2025 - batendo o menor patamar já registrado na série histórica do IBGE. O PIB cresceu acima de 3% em 2023 e 2024. Ou seja, o pano de fundo econômico geral não é de crise - é de recuperação.

E mesmo assim, loja física continuou fechando, Correios continuou perdendo mercado, restaurante continuou sufocado pelas taxas de aplicativo. Se fosse só "a economia mal", o quadro melhoraria junto com os indicadores gerais. Não melhorou - porque o problema não está no tamanho do bolo, está em quem está tomando fatia de quem.

A raiz é estrutural: marketplace e plataforma digital operam com um modelo de custo que a loja de rua não consegue igualar, e em alguns casos — como o dumping que os próprios Correios denunciaram no CADE contra Shopee e J&T Express — nem é concorrência limpa. É concentração de mercado nas mãos de quem controla a plataforma, empurrando pra fora quem depende de ponto físico e funcionário registrado.

Isso muda a pauta de cobrança. Não adianta esperar o país crescer mais pra loja física se recuperar sozinha - o crescimento já veio, e a crise continuou. O que resolve é regulamentação que impeça prática desleal e equilibre o jogo entre quem tem estrutura fixa e quem não tem.


O que falta: regras iguais pra quem compete de forma diferente

Se o problema é estrutural, a solução também precisa ser. Não dá pra pedir que loja física, restaurante de bairro e Correios "se modernizem mais rápido" enquanto concorrem contra plataforma que opera com outra estrutura de custo - e, em casos como o que os Correios levaram ao CADE, com prática de dumping.

Regulamentar marketplace e aplicativo de entrega não é perseguir empresa de tecnologia. É colocar todo mundo pra competir com as mesmas regras:

  • Fiscalizar dumping de verdade, com punição rápida - não só denúncia que demora anos pra virar decisão, enquanto a concorrência já quebrou.
  • Transparência nas taxas cobradas de vendedor e restaurante, pra ninguém sustentar preço baixo artificialmente às custas de quem depende da plataforma pra vender.
  • Tributação equivalente entre quem vende com CNPJ formal em loja física e quem vende pela mesma mercadoria via marketplace, sem brecha que favoreça um lado só por operar online.
  • Responsabilidade trabalhista clara, pra plataforma não terceirizar risco e custo pro entregador, pro vendedor pequeno ou pro trabalhador da ponta, enquanto lucra com o volume.

Regulamentação bem feita não é sobre frear a inovação nem encarecer produto pro consumidor - é sobre impedir que a "eficiência" de um lado venha de jogar sujo, e o preço disso caia sempre em cima de quem trabalha: seja no balcão da loja, na moto do entregador ou na rua com a sacola dos Correios.

O que isso significa pra quem trabalha nos Correios

Entender esse quadro maior importa por um motivo direto: enfraquece o discurso de que a solução pros Correios é só "cortar mais", "modernizar mais rápido" ou entregar a empresa pra iniciativa privada. Loja física também tem gestão profissional, também investe em site próprio, também tenta competir - e está quebrando do mesmo jeito.

O problema não é exclusivo de estatal. É de qualquer negócio que ainda depende de ponto físico, funcionário registrado e estrutura fixa, competindo contra quem não carrega esse peso - ou, pior, contra quem nem sequer respeita as regras do jogo.

Isso não tira a responsabilidade da gestão dos Correios em pontos que dependem só da empresa, como digitalização lenta e rastreamento em tempo real ainda frágil. Mas explica por que o problema não desaparece só com corte de despesa - porque a raiz está em como o mercado de logística e varejo mudou de forma estrutural.

E na sua cidade, o comércio também está sofrendo assim?

Você trabalha nos Correios ou conhece alguém que teve loja fechada pela concorrência de plataforma digital? Conta sua experiência nos comentários — quanto mais gente perceber que essa crise é maior que os Correios, mais força a categoria tem pra cobrar regulamentação justa, e não só corte de direito.

✍️ Por Junior Solid

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